Especialista brasileira produz atlas linguístico do Amazonas Fonte:
Diário de Pernambuco Online
17/05/2010 - Você já deu um ?cangapé?, conhece alguém ?panema? ou participou de algum ?ajuri?? Essas expressões podem parecer estranhas para grande parte dos brasileiros, mas são bem conhecidas dos amazonenses. Significam simplesmente cambalhota, azarado e mutirão na roça, respectivamente. Uma pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) mapeou o português falado pelos moradores do maior estado do país e descobriu uma imensa diversidade. O trabalho faz parte de um grande projeto que pretende catalogar as várias formas de falar em todo o território nacional.
A linguista Maria Luiza Cruz-Cardoso percorreu nove municípios de grande importância no Amazonas. Manaus foi deixada de fora, pois o objetivo era analisar como a população da região fala, minimizando as influências exteriores, que são bem mais intensas na capital do estado. ?Meu interesse foi investigar a fala rural em nossos municípios?, explica. Agora, com um grupo de pesquisadores formado, ela pretende continuar o mapeamento, incluindo Manaus no projeto.
A pesquisa analisou tanto a semântica (significado das palavras), identificando as várias expressões com o mesmo significado, quanto a fonética (estudo da pronúncia dos vocábulos). Mesmo as populações de municípios relativamente próximos usam expressões bem diferentes para se referir às mesmas coisas. Uma pessoa azarada, ou panema, pode ser chamada de oito maneiras diferentes, por exemplo.
Outra constatação do estudo foi que a evolução histórica das diferentes regiões influenciou a maneira de pronunciar as palavras. ?Há um modo de falar diferenciado entre as pessoas que estão na divisa dos rios Negro e Amazonas, que abriga os município de Barcelos, Itacoatiara e Parintins, e os moradores (próximos) do Rio Solimões, onde está o restante das localidades?, conta Maria Luiza. ?Os falantes dos três primeiros municípios pronunciam o fonema s de forma igual à fala do Rio de Janeiro, chiando. Já o restante, de forma igual à fala dos nordestinos, sem chiar?, completa.
A explicação para a diferença está na ocupação das áreas. ?Acredito que isso ocorra devido à colonização. Os municípios de Barcelos e Itacoatiara tiveram uma colonização portuguesa em grande escala, e os portugueses chiam o ?s? quando falam?, explica a responsável pelo estudo. ?Já a área do Solimões recebeu muitos migrantes nordestinos.?
O estudo também aponta as variações linguísticas de acordo com a idade e o sexo. ?Eu não segui apenas os critérios exigidos pela dialetologia, mas também da sociolinguística, que aborda a diferença no modo de falar entre homens e mulheres, entre as faixas etárias e entre pessoas de diferentes escolaridades?, conta a especialista. Um exemplo ocorre na cidade de Barcelos, onde as mulheres utilizam mais o termo pequenininho para designar alguém muito pequeno, mas os homens preferem a palavra gitinho.
Maria Luiza trabalha agora para disponibilizar todo o trabalho em um programa na internet, que poderá ser consultado por qualquer pessoa. Até o fim do ano, será possível pesquisar o significado das palavras e ouvir as várias formas como elas serão pronunciadas.
Todo o país
A pesquisa integra o Atlas Linguístico do Brasil (AliB), megaprojeto que vem sendo desenvolvido por linguistas de todo o país desde 1996 e que pretende documentar a maneira de falar em todo o país. ?O trabalho está sendo desenvolvido por 10 universidades brasileiras em 250 cidades de todos os estados, literalmente do Oiapoque ao Chuí?, conta a professora emérita da Univerdade Federal da Bahia (UFBA) Suzana Alice Cardoso, diretora do projeto.
Atualmente já foi concluída 80% da coleta de dados das cerca de 1,1 mil pessoas que serão entrevistadas, e todos os estados já estão com seu mapeamento em curso. No ano que vem, deve ser publicado o primeiro volume do atlas nacional. ?Quando concluído, o AliB também terá uma versão para a internet, que ficará disponível para a consulta de todos?, completa Suzana.
Da Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR